A migração na busca de trabalho temporário nas safras de café, cana, laranja, tomate, batata, maçã, uva, ...é uma constante em nosso País. E o povo que mais sai de sua terra é a classe mais pobre, simples e humilde mas com uma característica profunda: bons trabalhadores, sem medo de enfrentar os desafios do trabalho que encontram pela frente. Nesse tempo, as casas são literalmente fechadas. Em nossa região Sul de Minas, nas Dioceses de Guaxupé e da Campanha, vêm migrantes temporários do Norte de Minas, Vale do Jequitinhonha, do Sul da Bahia, do Norte do Paraná, do Maranhão, do Piauí, de Alagoas, de Sergipe, da Paraíba...  O tempo para a apanha do café varia entre 3 a 4 meses. A grande maioria dos que migram, vem de pequenas propriedades, outros da cidade, onde não tem emprego. Como quase não chove, se obrigam a sair em busca do trabalho. E a apanha do café se lhes apresenta como uma ótima alternativa econômica para a família, uma vez que podem ganhar entre 50 a 100 reais por dia, dependendo de quantas medidas de 60 litros cada qual colhe por dia. Com o advento das máquinas manuais, um trabalhador pode até faturar R$ 300 reais por dia, uma vez que cada máquina faz o trabalho por três pessoas. Conversando com um grupo da região de ARACATU, Bahia, constatei o seguinte: Podemos dizer que há 4 "subtempos" do Café: 

a) Tempo dos preparativos para sair;

b) Tempo do trabalho na apanha do café; 

c) Tempo das visitas aos parentes;  

d) Tempo do retorno  para casa.                                                                                        

MOVIMENTO MIGRATÓRIO

1. Preparativos:

Providências a serem tomadas:Primeira: arrumar um lugar numa turma através de um “gato” outurmeiro(responsável e chefe da turma)por vezes parente ou conhecido, que faz de intermediário entre o fazendeiro e a turma. É também migrante e recebe um salário maior. Cabe a ele escolher quem vai levar na turma: com experiência e bom trabalhador. Pode-se dizer que é como uma regra: turma com mesmo chefe numa fidelidade recíproca. Segunda: ajeitar as coisas na fazenda do sertão:finalizar trabalhos, ver quem cuida dos idosos, das crianças pequenas e inválidas que permanecem. Aqui funcionam as redes familiares de interajuda.

2. Trabalho no café propriamente dito:

Nas Fazendas do Sertão ficam poucos curtindo a espera, a saudade, a tristeza, a solidão... Nas Fazendas do Café a vida social e a sociabilidade mudam. Deixam suas casas e passam a morar em alojamentos, muitas vezes frios, sem muita estrutura confortável. Embora tenha melhorado muito. Aqui o trabalho é de uma empresa capitalista (Fazenda) não mais familiar, trabalho numa labuta sofrida, apesar de dar um bom lucro. Há, também, pequenos grupos que são contratados por proprietários de Sítios. A migração para os cafezais é realizada, em geral, por grupos de parentes ou conhecidos. Cada alojamento tem sua própria cozinha que é partilhada pelos grupos familiares. Cabe às mulheres o trabalho na cozinha. Por vezes, é destacada uma ou mais delas conforme a necessidade da turma. As mulheres lavam a roupa, limpam a casa.Nalguns alojamentos, quando constituídos só de homens, cada qual faz sua comida, lava sua roupa... Nos fins de semana, aproveitam para visitar algum parente ou conhecido, ou vão para a cidade... de modo que ir para o trabalho no café dá possibilidade até de se encontrar com parentes, visitar conhecidosque, vindos no trabalho da safra do café, resolveram estabelecer moradia e chamar a família para morar na região. É comum encontrar desse povo nas periferias das cidades.

3. Visita aos  Parentes:

Se o trabalho na Fazenda de Café é próximo à cidade onde estão os parentes, as visitas se dão mais frequentes. Senão, em outros casos, as visitas ocorrem no fim da safra do café antes de retornarem para as suas origens. Alguns grupos aproveitam, também, para fazer uma visita ao Santuário Nossa Senhora Aparecida. Esse é um momento, também, que os migrantes aproveitam para fazer as compras: roupas, celulares, aparelhos eletrônicos e até motos que levam no bagageiro do ônibus que os conduz de volta para casa.

4. Retorno para casa:

A vida do sertão volta a se alegrar. Acontece a Festa da volta. É o momento de presentear, de dar notícias dos parentes... É o momento de pagar as dívidas.

Para os jovens, sair para apanhar café, vem se configurando a principal alternativa de trabalho e renda:

- para construir a casa, ou reformar a moradia;

- para a compra de terra no sertão;

- para poder casar e formar família;

- para ter um futuro.

Bonito é o testemunho de uma mãe que vê seus filhos todos os anos partirem para o trabalho na apanha do café: “Meus filhos estão trabalhando no Sul de Minas Gerais. Eles não moram lá. Eles só vão trabalhar lá. Ficam uma temporada nesse vai-e-vem a cada ano. Depois, vai caindo a idade, não aguentam mais trabalhar. O que têm que fazê?Procurar um lugar certo.E o lugar certo é onde você é dono”.

Concluindo

O que se percebe na vida desses migrantes temporários é que não estão famintos somente do alimento material, sentido primeiro de suas buscas. Eles estão famintos também de Deus. Alguns deles não sabem rezar, outros nem receberam os Sacramentos da Iniciação Cristã. E nossas Paróquias têm desse Pão com abundância, representado pelas lideranças que disputam espaço para transmitir a sabedoria de Deus que, bem motivadas, poderiam doar-se ao serviço missionário de evangelização e catequese. Fica a proposta para os Missionários das Missões Populares. O Pe. Scalabriniano, Missionário dos Migrantes, procura passar e visitar todos os anos os apanhadores de Café, em especial naqueles municípios que ainda concentram mais trabalhadores braçais, despertando nas Paróquias o espírito Missionário de atenção e acolhida desses trabalhadores. Conforme as palavras do Papa Francisco: “Como Igreja Missionária, somos convocados a “sair nas periferias” onde se encontram os necessitados, os excluídos, os pobres. E uma dessas situações, sem dúvida nenhuma, são esses nossos irmãos migrantes temporários que chegam todos os anos em nossa região. “Eu era migrante e você me acolheu” . (Mt.35,25) Nosso Bispos Dom José Lanza Neto (Guaxupé) e Dom Pedro Cunha Cruz (Campanha), os Párocos, têm dado um grande apoio à Pastoral dos Migrantes. Fica aqui registrado um agradecimento especial a todos.

Pe. Emídio Girotto

Missionário dos Migrantes - Scalabriniano