A chegada repentina e expressiva de imigrantes haitianos, pressionou o governo de São Paulo a criar políticas para esse público. Uma das providências foi a abertura do Centro de Referência e Atendimento para Imigrantes (Crai-SP).

O Crai oferece 100 vagas de acolhida e atende em seis idiomas (criolo, espanhol, francês, inglês, lingala e português. 

Oferece serviços como agendamento na Polícia Federal da regularização migratória, a documentação e intermediação para trabalho, cursos de qualificação e acesso aos serviços públicos municipais, atendimento socioassistencial, encaminhamento para cursos e oficinas gratuitos, entre outros.

Também foi aberto um centro de acolhida para mulheres com filhos, na Penha, zona leste, e outro, com duzentas vagas, no Pari.

Na opinião do padre Paolo Parise (CS), São Paulo ‘’desenvolveu certa sensibilidade porque foi provocada pelo fluxo migratório’’.

Entretanto, a coordenadora executiva do Centro de Direitos Humanos e Cidadania do Imigrante (CDHIC), Tânia Bernuy, diz estar preocupada. “...enviamos uma carta para todos os candidatos, para que observem as políticas já desenvolvidas na cidade. Nossa preocupação é que os candidatos contemplem nos seus planos de governo as políticas já iniciadas”, disse Tânia.

Para ela, a eleição de imigrantes para os conselhos participativos das subprefeituras é uma das medidas que precisam permanecer, independentemente de quem seja o futuro prefeito de São Paulo. Outra medida importante, segundo a coordenadora do CDHIC, é a descentralização do Centro de Referência e Atendimento para Imigrantes em direção às periferias e a efetivação do Plano Municipal de Políticas para Migrantes, projeto de lei aprovado pela Câmara Municipal.  

A preocupação de Tânia Bernuy é compartilhada pelo padre Paolo Parisi. “A lei é um passo, mas se não se transformar em política pública efetiva, vai ficar no papel. Essa lei tem a grande intuição, que não temos em nível federal, de fazer as secretarias dialogarem, pois normalmente o tema é tratado por cada um como uma gaveta, uma não se comunica com a outra e os problemas são transversais.”

Paolo Parisi destaca a importância da realização de cursos profissionalizantes. Segundo ele, há oferta de cursos em áreas em que há carência no mercado e o que precisa é facilitar o acesso, algo em que o poder público poderia ajudar.

O sacerdote da Igreja da Paz enfatiza a moradia como “o drama atual”. Parisi explica que, ao sair das casas de acolhida, os imigrantes precisam alugar sua própria moradia e esbarram em obstáculos burocráticos, como a falta do registro nacional de estrangeiro.

Se a moradia é um tema crucial, a saúde, por outro lado, também tem suas especificidades. De acordo com Tânia Bernuy, há muito preconceito e falta de preparo dos agentes públicos para lidar com os estrangeiros. “A língua é uma barreira. Muitos imigrantes não são entendidos por causa do idioma, além de aspectos culturais. A tolerância é algo a ser trabalhado com esses agentes públicos porque o despreparo faz com que a prática não seja adequada e, muitas vezes, desrespeite a própria cultura do imigrante”, afirma a coordenadora CDHIC.

Diante de tantas barreiras, padre Paolo Parisi acredita que a cultura é um aspecto que pode superar as adversidades e mostrar uma outra face do imigrante que vive em São Paulo, uma cidade forjada pela colaboração das inúmeras comunidades estrangeiras que escolheram viver na capital paulista. “A cultura é fundamental para ter trocas sadias e olhar o outro não como um coitadinho, mas como alguém que também está trazendo riquezas para a cidade”, afirma.

Edição Roseli Lara/ Rede Scalabriniana

Fonte – Rede Brasil Atual