Professora Prisca Agustoni é a décima pesquisadora entrevistada do programa IdPesquisa (Foto: UFJF)
A literatura tem sido um espaço para narrar as experiências de migração, refletindo partidas, chegadas e desafios da adaptação a novas culturas. Com o objetivo de dar visibilidade a escritores migrantes e analisar as transformações geradas pelo contato entre diferentes línguas e perspectivas, o projeto “Vozes da Migração”, coordenado pela professora Prisca Agustoni, do Departamento de Línguas e Literaturas Estrangeiras Modernas e do Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários da UFJF, estuda obras literárias que abordam esse fenômeno.
O projeto é tema do décimo episódio do programa Id Pesquisa da UFJF, já disponível nas plataformas digitais. “Vozes da Migração” se concentra na produção de escritores migrantes, bilíngues ou que incorporam tais questões em suas obras literárias, investigando as transformações provocadas pela interação entre diversas perspectivas de mundo e idiomas. O movimento migratório, caracterizado por viagens arriscadas entre nações e continentes, é hoje uma das maiores tragédias da atualidade.
Através do projeto, Prisca destaca a relevância da tradução na edição de livros de escritores internacionais. Para ela, essa tarefa equivale à tradução dos códigos culturais, além de contribuir para o entendimento dos processos de migração. “A tradução é uma peça-chave para entender os processos migratórios não apenas no sentido linguístico, mas como uma ponte que permite o diálogo entre culturas. Esse é um aspecto central nos estudos sobre migração e identidade.”
A professora também observa que a tradução é um processo que exige tempo, pois envolve a identificação de códigos culturais, utilizando as ferramentas de decodificação oferecidas pela literatura e pelas ciências humanas. “Quando cada vez menos espaço é dado para as áreas de humanas, a gente percebe que o mundo se torna mais áspero, duro, tecnocrata e sem rosto. É preciso aprimorar cada vez mais a sensibilidade e a escolha daquilo que vamos traduzir e, por outro lado, quem vamos escolher para essa tarefa tão difícil da tradução, seja literária quanto de códigos culturais”, ressalta Prisca.
Novas formas de pertencimento
O projeto também explora como a literatura, a filosofia e a arte reconfiguram as experiências migratórias, refletindo os desafios contemporâneos enfrentados por milhões de pessoas ao redor do mundo. A pesquisadora observa que muitos escritores migrantes veem a escrita em outra língua como uma ferramenta para a construção de suas identidades literárias. Ela cita como exemplo a escritora russa Olga Martynova, cuja obra foi traduzida recentemente.
“Eu traduzi no ano passado uma poeta de origem russa, que cresceu entre a França e a Alemanha, que escreve a própria obra em francês e em alemão. Ou seja, ela se auto traduz, mesmo sendo russa de nacionalidade. É uma figura muito interessante. Tanto ela quanto muitas outras vozes contemporâneas reivindicam a ideia de que a nacionalidade é fundamental até certo ponto, porque há uma corrosão em curso.”
Pesquisadora e objeto de pesquisa
Prisca Agustoni, poeta, narradora, tradutora e autora de literatura infantojuvenil, nasceu em Lugano, Suíça, e desde 2003, divide sua vida entre o país europeu e o Brasil. No episódio, a pesquisadora também se coloca como objeto de sua própria pesquisa ao compartilhar sua experiência como emigrante. Embora sua migração não tenha sido forçada, ela fala sobre os desafios de adaptar-se a uma nova cultura e língua.
“Comecei como alguém que analisava e avaliava a obra de outros autores e artistas fundamentais para nossa época, orientando dissertações e teses. Aos poucos, fui integrando minha própria vivência, inicialmente de forma tímida, mas, com o tempo, percebendo a necessidade de assumir também a voz de quem migrou”, explica.
Prisca ainda reflete sobre sua relação com a literatura, considerando-a “um território de fronteiras mais abertas, sem a necessidade de passaportes”, em que, segundo ela, “permite criar universos, habitá-los e acolher outras pessoas, independentemente das limitações burocráticas e geopolíticas”.
Foi a partir dessas experiências que escreveu o livro “O Mundo Mutilado (2020)”, no qual traduz, por meio da literatura, os desafios e nuances da migração. O livro traz referências poéticas, influências em epígrafes e dedicatórias distribuídas nas seis seções da obra, revelando a complexa paisagem linguística de uma escritora que, entre línguas e geografias, encontrou no Brasil um novo lar
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