Chegar a um novo país sem dominar o idioma, sem emprego, sem moradia e, muitas vezes, trazendo apenas a esperança de dias melhores. Essa é a realidade enfrentada por muitos imigrantes que vêm a Mato Grosso do Sul em busca de dignidade e oportunidades para recomeçar.
Em Campo Grande, essa jornada tem encontrado apoio na Sala do Migrante. A iniciativa é coordenada pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) e conta com o apoio da Federação das Indústrias do Estado de Mato Grosso do Sul (Fiems), entre outros parceiros.
O espaço reúne serviços de acolhimento, regularização de documentos e conexão com o emprego. Em pouco mais de um ano, o projeto já encaminhou mais de 2 mil pessoas ao mercado de trabalho formal. São mais de duas mil famílias que tiveram oportunidade de recomeçar com dignidade.
Aprender português para recuperar a confiança
Se o CPF abre as portas para a formalização no país, o domínio do idioma é o que permite ao imigrante conquistar autonomia no cotidiano, construir novas relações sociais e competir por melhores oportunidades de emprego, como conta a venezuelana Luisany Alexandra Reveron Gragirena.
“Decidi estudar português porque sabia que a língua é a chave para me integrar de verdade à sociedade. Hoje tenho autonomia para resolver meus documentos, me comunicar no dia a dia e ir a qualquer lugar sem medo”, relatou.
Luisany é uma das alunas que concluiu o curso de Português Técnico e Comunicação para Imigrantes, oferecido pelo Senai com formação de 60 horas. As aulas foram ministradas em uma sala especialmente montada para o projeto, na sede da Superintendência Regional do Trabalho e Emprego, na capital.
O haitiano Smith Bien Aime lembra que o curso transformou o aprendizado da língua em uma experiência acessível e motivadora.
“A língua virou algo palpável. A gramática foi bem explicada e todos conseguiam acompanhar. Para nós, o curso foi um sucesso total”, avaliou.
Educação, acolhimento e oportunidades
No curso, os participantes tiveram acesso a conteúdo sobre língua portuguesa, cultura brasileira, serviços públicos e comunicação para o mercado de trabalho. A professora Maria Rosana Rodrigues Pinto Gama conta que a experiência foi marcada pelo comprometimento dos alunos e pela vontade de aprender.
“O respeito e o interesse dos estudantes em aprender português, além da gratidão pela forma como foram acolhidos no Brasil, ficaram evidentes durante todo o curso. Foi uma experiência pedagógica extremamente gratificante”, ressaltou.
A venezuelana Maizmell Teresa Hernandez Rodriguez reforça o acolhimento recebido durante as aulas.
“Estou muito agradecida pelo tempo investido em nos ensinar a língua portuguesa. Foi um trabalho feito com amor, paciência e dedicação”, declarou.
Também venezuelana, Liliana Josefina Alvarez Maestre destaca que a comunicação é uma necessidade básica para quem chega a um país estrangeiro.
“Como estrangeiro, é necessário se comunicar, e ao mesmo tempo é frustrante quando não conseguimos. Graças a esse projeto, nós estamos sendo muito ajudados. Cada aula foi maravilhosa. Que iniciativas como essa continuem”, afirmou.
Educação, acolhimento e oportunidades
Segundo o superintendente regional do Trabalho em Mato Grosso do Sul, Alexandre Cantero, a iniciativa nasceu da percepção de que milhares de vagas existentes no Estado poderiam ser ocupadas por pessoas que buscavam reconstruir suas trajetórias de vida.
“Estamos levando cidadania para quem está chegando ao Estado e, ao mesmo tempo, possibilitando o crescimento sustentável do setor produtivo com trabalho formal e direitos garantidos”, afirmou.
A presidente da Associação Venezuelana em Campo Grande, Mirtha Carpio, acompanha diariamente o atendimento aos imigrantes ao lado de Junel Ilora, da associação dos haitianos. Ela conta que muitos chegam à capital após longas jornadas e em situação de extrema vulnerabilidade.
“Muitas pessoas deixam para trás suas casas, suas famílias e suas carreiras. Algumas chegam apenas com a roupa do corpo. Por isso, ter um local que ofereça acolhimento, documentação, orientação profissional e qualificação faz toda a diferença”, afirmou.
Próxima qualificação
Entre as entidades parceiras da Sala do Migrante estão a Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS) e o Sindicato das Indústrias de Frios, Carnes e Derivados do Estado de Mato Grosso do Sul (Sicadems). O presidente do sindicato, Régis Comarella, explica que o projeto representa a chance de recomeçar uma vida nova em solo brasileiro.
“Mais do que capacitar trabalhadores, a iniciativa busca oferecer condições para que homens e mulheres que deixaram seus países de origem possam reconstruir suas vidas com autonomia, dignidade e perspectivas de futuro”, afirmou.
Dando continuidade às ações de capacitação, o Senai já prepara novas oportunidades para os imigrantes atendidos pelo projeto. O próximo curso será o de Segurança no Trabalho e Prevenção, com carga horária de 16 horas.
A proposta é ampliar ainda mais as possibilidades de inserção profissional dos participantes, especialmente em setores que demandam mão de obra qualificada e seguem em expansão em Mato Grosso do Sul.
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