Entre memórias interrompidas, heranças culturais e conflitos de pertencimento, o escritor paranaense Oscar Nakasato transforma a experiência da imigração japonesa em literatura e revisita uma identidade construída entre o Japão e o Brasil
O deslocamento é uma força que move não apenas vidas, mas também saudades e lembranças. Um silêncio atravessando mesas de jantar, fotografias antigas, sotaques interrompidos e gestos que nunca precisavam ser explicados dentro das famílias nipo-brasileiras. Foi nesse espaço, entre o que era dito e aquilo que permanecia guardado, que o escritor paranaense Oscar Nakasato cresceu. Filho de imigrantes japoneses, ele nasceu em Maringá e aprendeu desde cedo que existir entre duas culturas também significa carregar conflitos difíceis de nomear.
O Paraná possui uma das maiores comunidades nipo-brasileiras do país, segundo a Embaixada do Japão no Brasil. A imigração japonesa para o estado se intensificou principalmente a partir da década de 1930, impulsionada pela expansão agrícola do norte paranaense. Famílias japonesas chegaram a cidades como Londrina, Maringá, Assaí e Uraí para trabalhar, principalmente nas lavouras que se tornaram uma das identidades do norte do estado. Mas a história da imigração japonesa, no Brasil, começa antes. Em 1908, o navio Kasato Maru atracou no porto de Santos trazendo os primeiros imigrantes japoneses ao país. O movimento acontecia em um contexto de crise econômica e excesso populacional no Japão, enquanto o Brasil buscava mão de obra após a abolição da escravidão.
Ao longo da conversa, o escritor Nakasato fala baixo, pausadamente, como quem organiza as palavras antes de soltá-las. A impressão é de que a escrita de Nakasato nasce exatamente desse movimento: observar durante muito tempo algo aparentemente comum até perceber o peso histórico escondido nele. “A memória da imigração japonesa nunca foi algo distante para mim”, comenta. “Ela estava dentro de casa.”.
Para a pesquisadora da imigração japonesa da Universidade Federal do Paraná, Mônica Setuyo Okamoto, existe uma tendência histórica de romantizar a experiência dos japoneses no Brasil, apagando conflitos importantes dessa trajetória. “Muitas vezes se construiu uma ideia da imigração japonesa associada apenas ao trabalho, disciplina e sucesso econômico”, explica. “Mas existiram rupturas, discriminações e dificuldades profundas de pertencimento”.
Segundo ela, os primeiros imigrantes chegaram ao Brasil carregando valores sociais extremamente rígidos, como ordem e disciplina, que foram construídos em um Japão fortemente nacionalista do final do século XIX e início do século XX. “Muitos vieram acreditando que retornariam ao Japão depois de enriquecer”. A permanência definitiva em território brasileiro, para várias famílias, não fazia parte dos planos iniciais. “O Brasil era visto como um lugar de passagem”.
Essa tentativa constante de preservar uma identidade japonesa aparece diretamente na obra de Oscar Nakasato. Em Nihonjin, livro vencedor do Prêmio Jabuti na categoria Romance Literário em 2012, o autor revisita a trajetória de famílias japonesas que migraram para o Brasil carregando expectativas, traumas e dificuldades de adaptação. O livro acompanha gerações diferentes, revelando conflitos entre pais e filhos, tradição e assimilação, memória e pertencimento. Embora seja ficção, a narrativa dialoga diretamente com experiências históricas da imigração japonesa no Paraná e no Brasil.
“Eu escrevi muito a partir das memórias que ouvi durante a vida”, conta Nakasato. “Não eram histórias organizadas, eram fragmentos.” Ele lembra que cresceu cercado por relatos interrompidos, comentários sobre o Japão, lembranças da guerra e histórias de deslocamento. Muitas vezes, porém, existia também uma recusa em falar profundamente sobre o passado. “Os imigrantes japoneses tinham uma relação muito silenciosa com a dor.”
Mônica Okamoto explica que isso não era incomum. Segundo ela, muitas famílias japonesas que chegaram ao Brasil carregavam experiências traumáticas decorrentes da guerra. “Existe uma dimensão emocional da imigração que nem sempre aparece nos registros históricos”, afirma. “Migrar não significa apenas mudar de território, significa abandonar referências, afetos e uma ideia de futuro”.
Segundo a pesquisadora, os japoneses encontraram um território desconhecido, dificuldades econômicas e forte preconceito racial ao chegar ao Brasil. Durante a Segunda Guerra Mundial, a situação se agravou ainda mais. Como o Japão fazia parte do Eixo, ao lado da Alemanha e da Itália, famílias japonesas passaram a ser perseguidas e vigiadas pelo governo brasileiro. Escolas japonesas foram fechadas, jornais censurados e o uso do idioma proibido em espaços públicos, causando muito preconceito aos imigrantes japoneses que residiam no Brasil. “Muitos imigrantes viveram aquele período como uma ruptura violenta”, explica Okamoto. “Eles já eram vistos como estrangeiros antes, mas durante a guerra passaram a ser tratados como inimigos”.
Nakasato comenta que a guerra ocupa um espaço importante dentro da memória coletiva nipo-brasileira justamente porque ela intensificou conflitos de identidade já existentes. “Os filhos dos imigrantes cresceram entre duas culturas, mas sem se sentirem completamente pertencentes a nenhuma delas”.
Essa sensação aparece constantemente na literatura de Oscar Nakasato. Os personagens de Nihonjin vivem atravessados por expectativas familiares, cobranças silenciosas e dificuldades emocionais herdadas de gerações anteriores. Existe uma sensação permanente de deslocamento, mesmo para aqueles que já nasceram no Brasil. “A imigração não termina na geração que atravessa o oceano,lá continua sua literatura nos filhos e nos netos”.
Ao longo da entrevista, Nakasato fala várias vezes sobre herança. Não apenas herança material ou cultural, mas emocional. Para ele, muitos descendentes de japoneses cresceram tentando corresponder a uma ideia rígida de comportamento construída pelos próprios imigrantes. “Existia muito a ideia do esforço, do silêncio e da obrigação”.
A pesquisadora Mônica Okamoto explica que parte dessa lógica vinha de valores trazidos do Japão do início do século XX. Entre eles, conceitos ligados ao bushidô, código moral associado aos samurais, e à chamada “moral japonesa”, ensinada nas escolas japonesas durante o período imperial. “Esses valores foram reinterpretados no Brasil como forma de construir ‘bons cidadãos’ nipo-brasileiros”, afirma. “A disciplina, a obediência e o autocontrole passaram a ser vistos como virtudes centrais dentro da comunidade”.
Segundo ela, esses comportamentos também funcionavam como mecanismo de proteção diante do preconceito racial enfrentado no Brasil. “Muitos imigrantes acreditavam que precisavam demonstrar excelência moral e profissional para serem aceitos socialmente”. Ainda assim, a preservação desses valores nem sempre acontecia sem conflitos. Filhos e netos de japoneses cresceram tentando equilibrar expectativas familiares com a realidade brasileira ao redor deles.
Nakasato observa que essa cobrança atravessou gerações. “Muitos descendentes cresceram tentando corresponder a expectativas muito altas”, diz. Para ele, a literatura surge justamente como espaço para questionar esses silêncios e contradições. “Escrever foi uma forma de compreender coisas que eu vivi sem entender completamente”.
O escritor comenta que, durante dois séculos, a imigração japonesa foi narrada quase exclusivamente através do sucesso econômico e da disciplina. Pouco se falava sobre sofrimento emocional, solidão ou conflitos familiares. “Existe uma tendência de transformar os imigrantes japoneses em um modelo idealizado, mas eram pessoas atravessadas por medo, frustração e dificuldades como qualquer outro grupo imigrante”, afirma.
Apesar do reconhecimento nacional, o escritor mantém uma relação muito íntima com o Paraná. É impossível separar sua trajetória pessoal do contexto histórico da imigração japonesa no estado. Maringá, Londrina e outras cidades do norte paranaense aparecem não apenas como cenário, mas como espaços simbólicos de construção identitária. “O Paraná tem uma presença japonesa muito forte, o que molda a cultura local de várias maneiras”.
Segundo Okamoto, o norte do Paraná foi fundamental para a consolidação das comunidades japonesas no Brasil. A expansão agrícola da região, especialmente ligada ao café, permitiu que muitas famílias japonesas criassem redes comunitárias, escolas e associações culturais. “Esses espaços ajudavam a preservar a identidade japonesa, e a criar ambientes de forte cobrança interna”.
Ela afirma que muitos descendentes cresceram entre duas pressões distintas: a necessidade de se adaptar ao Brasil e a obrigação de preservar valores da cultura japonesa. “A identidade nikkei (palavra em kanji que descreve imigrantes japoneses e pessoas que nasceram fora do Japão) foi construída nesse espaço de negociação constante.”
Ao falar sobre pertencimento, Nakasato hesita por alguns segundos. Existe algo de parecido entre suas reflexões e as falas de outros descendentes de imigrantes relatadas em artigos: a percepção de que identidade nunca é algo totalmente resolvido. “Eu sou brasileiro”, mas também existe uma memória japonesa que faz parte da forma como eu vejo o mundo, afirma.
Mônica Okamoto acredita que essa dualidade continua presente mesmo entre gerações mais jovens. “Não se trata de escolher entre ser japonês ou brasileiro”, essas experiências coexistem”. Para ela, descendentes de japoneses frequentemente vivem uma espécie de pertencimento híbrido, no qual diferentes referências culturais se misturam dentro do cotidiano brasileiro.
Essa coexistência aparece também na própria linguagem de Nakasato. Seus textos costumam carregar um ritmo contido, econômico, quase silencioso. Há sempre a sensação de que algo importante permanece nas entrelinhas. “Eu acho que isso vem muito da experiência da comunidade japonesa”, nem tudo é dito diretamente, comenta”.
A própria escolha da literatura como linguagem também parece atravessada por essa tentativa de evidenciar silêncios familiares. Nakasato explica que escrever sobre imigração nunca foi apenas revisitar o passado, é também falar sobre o presente. “O Brasil continua sendo um país atravessado por migrações”, afirma Nakasato. Ao olhar para movimentos migratórios contemporâneos, como os de venezuelanos e haitianos, ele reconhece dinâmicas parecidas às vividas pelos japoneses décadas atrás. “Mudam os contextos históricos, mas permanecem a tentativa de pertencimento e os conflitos de identidade.”
Para ele, a literatura de imigração ajuda a compreender o Brasil de maneira mais profunda. “A história brasileira é feita de deslocamentos”, diz. Entender essas trajetórias significa também compreender como diferentes grupos ajudaram a construir o país e como essas memórias atravessam gerações.
No fim da conversa, ao ser questionado sobre memória, o escritor permanece alguns segundos em silêncio antes de responder. Talvez para ele, nunca tenha sido apenas lembranças. É herança, conflito e continuidade. “Existe muita coisa que desaparece quando uma geração vai embora, mas também existe aquilo que permanece mesmo sem ser dito”, diz.
Talvez seja exatamente nesse espaço, entre o silêncio e a permanência, que a literatura de Oscar Nakasato continua existindo. Não apenas como registro da imigração japonesa no Paraná e no Brasil, mas como tentativa de compreender aquilo que atravessa gerações sem nunca desaparecer completamente.
Ficha técnica:
Produção: Maria Gallinea e Dimitri de Souza
Supervisão de produção: Hendryo André
Edição e publicação: Emanueli Garcia, João Pimentel, Larissa Didres, Leonardo Alexandre, Roberto Indzejczak e Sarah Brasil
Supervisão de publicação: Aline Rosso e Muriel Emídio do Amaral
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