Seleção francesa é uma das favoritas na edição deste ano da Copa do Mundo
Reprodução / @equipedefrance
Lucila Runnacles
Madri
Enquanto parte da Europa endurece suas políticas migratórias e vê partidos de extrema direita ampliarem espaço político, muitas das principais seleções do continente refletem a diversidade construída por décadas de imigração. Na Copa do Mundo de 2026, diversos dos protagonistas são filhos de imigrantes ou nasceram em países diferentes daqueles que representam.
A seleção da Suíça é um dos exemplos desse cenário. Mais da metade do elenco tem trajetória familiar ligada à imigração. Entre os convocados, há 14 atletas nascidos fora do país e outros filhos de imigrantes vindos de países como Camarões, Kosovo e República Democrática do Congo.
A Suíça não é um caso isolado. A França, atual potência do futebol mundial, também reúne um elenco que reflete a diversidade étnica e cultural formada ao longo de décadas de imigração. Kylian Mbappé, uma das maiores estrelas do futebol mundial, que nasceu no território francês, é filho de pai camaronês e mãe argelina. Ousmane Dembélé também carrega essa herança multicultural: o pai é do Mali e a mãe, da Mauritânia.
Essa diversidade tem raízes históricas. Além do passado colonial francês em diferentes regiões da África, sucessivas ondas migratórias ao longo do século 20 transformaram a composição demográfica do país.
O fenômeno vai além da França. Alemanha, Inglaterra e Holanda também contam com jogadores cujas histórias familiares passam pela imigração, resultado de décadas de mobilidade internacional e transformações demográficas.
Ao todo, a Copa de 2026 reúne 289 jogadores defendendo seleções diferentes dos países onde nasceram. “As seleções de futebol na Europa são um reflexo da sociedade atual na qual vivemos”, afirmou a Opera Mundi o diretor da Psicoaction e doutor em psicologia da saúde e do esporte, Fran Herruzo Torres.
Para Torres, a composição multicultural das seleções evidencia uma realidade consolidada em muitos países europeus. Ao mesmo tempo, ela convive com um cenário político em que governos e partidos defendem políticas migratórias cada vez mais restritivas.
O especialista explica que a percepção sobre os imigrantes muda de acordo com o contexto social. “Muitas vezes o imigrante é visto como uma ameaça ao emprego ou aos benefícios sociais. Mas, quando veste a camisa da seleção, passa a me representar porque eu quero vencer e quero que o meu país triunfe. É aí que aparecem os dois pesos e duas medidas”.
Endurecimento migratório
Nos últimos anos, diferentes países europeus vêm endurecendo suas políticas migratórias. No começo de junho, entrou em vigor um novo pacto migratório da União Europeia que endurece as regras de asilo, acelera os processos de deportação e abre a possibilidade de criação de centros de retorno fora do território europeu.
Com as novas normas, os 27 países do bloco passam a contar com mecanismos mais rápidos para expulsar migrantes em situação irregular, enquanto os procedimentos de retorno são simplificados. Em muitos casos, os pedidos de asilo poderão ser analisados ainda nas fronteiras, antes da entrada formal no território europeu.
A Espanha, no entanto, apresenta um panorama distinto. Embora também enfrente desafios migratórios, o governo do primeiro-ministro Pedro Sánchez tem adotado medidas voltadas à regularização e mantém um discurso mais favorável à integração do que outros governos europeus.
Em abril, Sánchez anunciou uma regularização em massa que permitiu a cerca de 900 mil imigrantes em situação irregular solicitar a permanência legal no país.
Curiosamente, a seleção espanhola está entre as menos marcadas por atletas com origem familiar estrangeira. Apenas três jogadores têm raízes fora da Espanha: Lamine Yamal, filho de pai marroquino e mãe da Guiné Equatorial; Nico Williams, filho de ganeses; e Aymeric Laporte, nascido na França e naturalizado espanhol.
Adaptação e costumes
A influência da imigração não se reflete apenas na composição das seleções. Em alguns casos, ela também modifica práticas culturais dentro do próprio esporte.
Torres explica que, quando culturas diferentes compartilham o mesmo espaço, todas passam por transformações. Um exemplo é o futebol inglês, que desde 2021 passou a permitir breves interrupções durante partidas da Premier League que coincidem com o pôr do sol no Ramadã para que jogadores muçulmanos possam quebrar o jejum.
“Vemos isso claramente na Inglaterra, onde hoje há muitos atletas muçulmanos jogando na primeira divisão. Durante o Ramadã, árbitros permitem uma pausa muito curta nas partidas que coincidem com o horário do pôr do sol para que os jogadores muçulmanos que estão sem comer ou beber possam quebrar o jejum”.
Para Torres, o esporte — especialmente o futebol — funciona como uma importante ferramenta de integração social.
“Quando um jovem joga com um imigrante, ele percebe que essa pessoa tem as mesmas necessidades que ele e isso se torna algo natural. Essa pessoa deixa de ser apenas um imigrante e passa a ser um amigo. O esporte une muito”, concluiu.
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