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Da Guerra Fria aos algoritmos: como a religião ajudou a transformar a cultura brasileira

  • por

Gerd Altmann/Pixabay

 

José Carlos Lima

A identidade cultural brasileira está passando por uma das maiores transformações de sua história. Esse processo não pode ser explicado apenas pelo crescimento das igrejas neopentecostais nem apenas pela revolução digital. Ele resulta do encontro entre mudanças religiosas, econômicas, políticas e tecnológicas que, ao longo dos últimos setenta anos, alteraram profundamente a forma como os brasileiros vivem a fé, compreendem a sociedade e se relacionam entre si.

O Brasil sempre foi uma nação marcada pelo sincretismo religioso, pela convivência entre diferentes tradições e por um forte espírito comunitário. Nossa cultura foi construída pela mistura de povos indígenas, africanos, europeus e migrantes de diversas origens. A solidariedade, a vida em comunidade e a capacidade de conviver com as diferenças tornaram-se características marcantes da sociedade brasileira.

Entretanto, essa identidade começou a ser desafiada ainda durante a Guerra Fria.

Naquele contexto, América Latina e Brasil tornaram-se espaços estratégicos da disputa entre capitalismo e socialismo. Ao mesmo tempo em que cresciam os movimentos populares, sindicais e estudantis, a Igreja Católica aproximava-se das periferias por meio das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), fortalecidas pelo Concílio Vaticano II e pela Conferência de Medellín. A partir delas, milhares de leigos passaram a organizar pequenas comunidades de fé, solidariedade e participação social, suprindo a escassez de sacerdotes provocada pela rápida urbanização e pelo intenso êxodo rural.

Foi também nesse período que a Teologia da Libertação ganhou força ao defender uma leitura do Evangelho comprometida com a justiça social, a superação da pobreza e a organização popular.

Paralelamente, intensificou-se a atuação de missionários protestantes norte-americanos e canadenses na América Latina. O objetivo declarado dessas missões era ampliar a evangelização. Contudo, diversos pesquisadores sustentam que essa expansão também se inseria no ambiente ideológico da Guerra Fria, quando organizações religiosas passaram a ser vistas, por diferentes atores, como parte da disputa pela influência política e cultural no continente. Nesse contexto, movimentos de esquerda e a crescente presença da Igreja Católica nas periferias tornaram-se importantes focos de oposição de setores religiosos anticomunistas.

Desse ambiente nasceram ou ganharam força novas denominações pentecostais, como a Igreja do Evangelho Quadrangular, O Brasil para Cristo, Deus é Amor e a Casa da Bênção. Esta última, fundada pelo missionário canadense Robert McAlister, influenciou diretamente uma geração de líderes que daria origem ao neopentecostalismo brasileiro.

Nas décadas seguintes surgiram igrejas como a Universal do Reino de Deus, a Internacional da Graça de Deus, a Renascer em Cristo e a Mundial do Poder de Deus. Embora diferentes entre si, essas denominações compartilhavam características comuns: intensa utilização dos meios de comunicação, administração altamente profissionalizada, forte presença nas periferias urbanas e uma teologia centrada na experiência individual da fé.

A Teologia da Prosperidade passou a afirmar que a bênção divina também se manifesta por meio do sucesso material, da saúde e da prosperidade econômica. A salvação deixou de ser apresentada apenas como uma promessa futura e passou a ser percebida também como vitória sobre os problemas da vida cotidiana.

Ao mesmo tempo, a Igreja Católica vivia um período de mudanças internas. Durante os pontificados de João Paulo II e Bento XVI, a Teologia da Libertação sofreu fortes restrições doutrinárias, enquanto as Comunidades Eclesiais de Base perderam espaço e influência. Sem abandonar sua missão social, a Igreja reduziu sua capacidade de organização popular justamente no momento em que as igrejas pentecostais ampliavam rapidamente sua presença nos bairros populares.

Outro fenômeno decisivo foi o surgimento da cultura gospel.

A Igreja Batista da Lagoinha, sob a liderança do pastor Márcio Valadão, desempenhou papel fundamental nesse processo. O ministério Diante do Trono, liderado por Ana Paula Valadão, transformou a música evangélica em um fenômeno nacional. A partir daí consolidou-se uma poderosa indústria cultural formada por gravadoras, editoras, rádios, emissoras de televisão, grandes eventos e, mais recentemente, influenciadores digitais.

A religião deixou de ocupar apenas os templos para tornar-se também entretenimento, mercado e produção permanente de conteúdo.

Então chegou a internet.

As redes sociais aceleraram uma transformação que já estava em curso. Pela primeira vez na história brasileira, a formação de valores deixou de depender prioritariamente da família, da escola, das igrejas e das organizações comunitárias. Hoje, algoritmos decidem quais mensagens religiosas, políticas e culturais alcançarão milhões de pessoas todos os dias.

Essa mudança coincide com outra transformação mais profunda: a passagem de uma cultura fortemente comunitária para uma lógica cada vez mais individualista. Enquanto as Comunidades Eclesiais de Base valorizavam a solidariedade, a participação popular e a transformação coletiva da sociedade, boa parte da religiosidade contemporânea enfatiza a realização pessoal, o empreendedorismo individual, a prosperidade econômica e a responsabilidade exclusiva do indivíduo pelo próprio sucesso.

Não se trata de afirmar que todas as igrejas pensam da mesma maneira, nem de reduzir a complexidade da história religiosa brasileira a uma única interpretação. O campo religioso permanece plural e abriga experiências muito diversas. Contudo, é difícil ignorar que a expansão do neopentecostalismo coincidiu com profundas mudanças culturais, econômicas e tecnológicas que fortaleceram valores mais individualistas.

A pergunta que permanece é maior do que a religião.

O Brasil conseguirá preservar sua tradição de convivência, solidariedade, diversidade cultural e organização comunitária diante de uma sociedade moldada por algoritmos, pela lógica do mercado e pela valorização crescente do indivíduo?

Responder a essa questão talvez seja um dos maiores desafios intelectuais e políticos do nosso tempo. Afinal, o debate já não diz respeito apenas ao futuro das igrejas, mas ao futuro da identidade cultural brasileira e da própria democracia.

José Carlos Lima, Dirigente da Fundação Verde Herbert Daniel, advogado, ambientalista e amazônida

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